
Às margens do Rio Dnieper, na atual Ucrânia, surgiu uma das cidades mais importantes da Europa Oriental medieval: Kiev. Muito antes de se tornar um centro político cristão, essa região era o coração espiritual dos povos eslavos orientais. No topo das colinas que dominavam a paisagem urbana, altares de madeira e pedra eram dedicados a Perun, o deus do trovão, do raio, da guerra e da autoridade tribal.
Para os eslavos antigos, o som do trovão não era apenas um fenômeno natural. Era a manifestação direta do poder divino. Perun representava a força do céu, o protetor das comunidades, o garantidor de juramentos e o símbolo máximo de liderança. Neste artigo, você vai entender onde ficava a Kiev pagã, quem foi Perun, como mito e território se conectam, o que dizem arqueólogos modernos e por que a herança espiritual eslava continua influenciando a identidade cultural da Europa Oriental.
Onde ficava a Kiev Antiga e por que esse território foi tão importante
Kiev se desenvolveu ao longo do Rio Dnieper, uma das principais rotas comerciais da Europa medieval. Essa posição estratégica transformou a cidade em ponto de conexão entre o Mar Báltico e o Mar Negro.
Importância geográfica e econômica
A região se destacou por:
- Rotas fluviais de comércio
- Terras férteis para agricultura
- Defesa natural por colinas e rios
- Conexão entre povos nórdicos, eslavos e bizantinos
Durante o período da Rus de Kiev (séculos IX a XIII), a cidade se tornou um dos maiores centros urbanos da Europa Oriental, rivalizando com Constantinopla em influência regional.
Antes da cristianização, Kiev era também um centro religioso pagão, onde Perun ocupava posição central no panteão eslavo.
Quem era Perun na mitologia eslava
Perun era a principal divindade dos eslavos orientais, especialmente entre povos que habitavam as regiões que hoje correspondem à Ucrânia, Rússia, Bielorrússia e Polônia oriental.
Ele era associado a:
- Trovão e relâmpago
- Guerra e proteção militar
- Justiça divina
- Juramentos e contratos
- Autoridade dos líderes
Perun era visto como o senhor do céu e das tempestades, equivalente eslavo a figuras como Thor (nórdico) e Zeus (grego).
A imagem simbólica de Perun
Nas tradições orais, Perun era representado como:
- Um guerreiro barbudo
- Portando um machado ou martelo
- Montado em uma carruagem celestial
- Cercado por tempestades
Essa iconografia reforçava seu papel como defensor da ordem e destruidor das forças caóticas.
Perun e o culto ao trovão
Para os povos agrícolas e guerreiros da Europa Oriental, o trovão tinha profundo significado simbólico.
O trovão como linguagem divina
Tempestades eram interpretadas como:
- Sinais de aprovação ou punição
- Avisos espirituais
- Manifestações diretas do deus
Quando um raio atingia uma árvore ou rocha, o local era frequentemente considerado sagrado.
Muitos santuários de Perun eram construídos em áreas elevadas, colinas e proximidades de grandes árvores, consideradas pontos de contato entre céu e terra.
A relação entre Perun e o poder político
Perun não era apenas uma divindade espiritual. Ele estava profundamente ligado à autoridade política.
Perun como protetor dos príncipes
Na Rus de Kiev, governantes realizavam juramentos públicos invocando Perun como testemunha divina.
Esses juramentos envolviam:
- Tratados diplomáticos
- Acordos comerciais
- Alianças militares
- Lealdade ao governante
Quebrar um juramento feito em nome de Perun era considerado crime espiritual e social.
Isso reforçava a ideia de que a ordem política era sustentada por forças divinas.
O panteão eslavo e a rivalidade entre Perun e Veles
Um dos mitos mais importantes da tradição eslava envolve o conflito entre Perun e Veles, o deus do submundo, da riqueza e do gado.
A batalha cósmica
Segundo a narrativa:
- Veles roubava gado ou filhos de Perun
- Perun perseguia Veles com relâmpagos
- O trovão simbolizava essa perseguição celestial
- A vitória de Perun restaurava a ordem
Esse mito representava:
- Céu contra terra
- Ordem contra caos
- Autoridade contra astúcia
- Estabilidade contra transformação
Esse ciclo simbólico explicava fenômenos naturais como tempestades e mudanças sazonais.
Santuários de Perun em Kiev e arredores
Antes da cristianização, Kiev possuía altares dedicados a Perun.
O santuário principal de Kiev
Fontes históricas indicam que o príncipe Vladimir, antes de adotar o cristianismo, mandou erguer uma grande estátua de Perun em uma colina da cidade.
Esse espaço incluía:
- Ídolos de madeira
- Áreas cerimoniais
- Altares para oferendas
- Espaços para assembleias tribais
O local funcionava como centro religioso e político.
Após a conversão ao cristianismo em 988, o ídolo de Perun foi derrubado e lançado ao rio, simbolizando a transição religiosa do Estado.
O que dizem arqueólogos e historiadores

Pesquisas modernas ajudam a reconstruir o culto a Perun.
Descobertas arqueológicas
Escavações em regiões eslavas revelaram:
- Restos de santuários em colinas
- Amuletos em forma de machado
- Símbolos solares associados a Perun
- Objetos rituais ligados a guerreiros
Esses achados mostram que o culto a Perun era amplamente difundido e estruturado.
Fontes históricas
Cronistas medievais registraram:
- Juramentos feitos em nome de Perun
- Cerimônias públicas
- Festivais ligados ao trovão
- Transição religiosa durante a cristianização
Esses registros ajudam historiadores a compreender o papel central do deus na sociedade eslava.
Perun e o calendário agrícola
Apesar de ser associado à guerra, Perun também tinha papel agrícola.
Tempestades e fertilidade
Chuvas trazidas pelas tempestades eram essenciais para:
- Plantio de cereais
- Crescimento das colheitas
- Renovação do solo
Por isso, Perun também era invocado para garantir boas safras.
Essa dualidade — guerreiro e provedor — tornava o deus fundamental para a sobrevivência das comunidades.
A cristianização e a transformação do culto a Perun
Com a adoção do cristianismo pela Rus de Kiev, o culto oficial a Perun foi proibido.
Sincretismo religioso
Apesar disso, muitos elementos sobreviveram:
- Perun foi associado ao profeta Elias (ligado ao trovão)
- Festas populares mantiveram símbolos antigos
- Rituais agrícolas preservaram tradições pagãs
Esse sincretismo permitiu que a herança eslava continuasse viva sob novas formas religiosas.
Kiev hoje: turismo histórico e espiritual
Atualmente, Kiev é uma das cidades mais importantes da Europa Oriental e guarda vestígios de sua herança pagã e cristã.
O que o visitante encontra
Turistas podem explorar:
- Colinas históricas
- Igrejas construídas sobre antigos locais sagrados
- Museus arqueológicos
- Parques às margens do Dnieper
Alguns roteiros turísticos incluem visitas a áreas associadas ao período pagão da cidade.
Experiência turística moderna
Quem visita Kiev costuma combinar:
- Passeios históricos
- Arquitetura medieval
- Museus culturais
- Paisagens fluviais
Para esse tipo de viagem urbana e histórica, recomenda-se:
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Produtos culturais para aprofundar a mitologia eslava
Após conhecer a história de Perun, muitos leitores e viajantes buscam materiais relacionados à cultura eslava.
Entre os mais procurados estão:
- Livros sobre mitologia eslava
- Mapas históricos da Europa Oriental
- Amuletos simbólicos
- Arte decorativa tradicional
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Perun e a identidade eslava moderna
Nos últimos anos, houve um renascimento do interesse pela mitologia eslava.
Influência contemporânea
Perun aparece em:
- Literatura histórica
- Jogos eletrônicos
- Séries e filmes
- Movimentos culturais neopagãos
Ele se tornou símbolo de identidade cultural, ancestralidade e resistência histórica.
Esse movimento busca reconectar as novas gerações com tradições pré-cristãs da Europa Oriental.
Perun e os valores ancestrais
Perun representa valores universais que continuam relevantes:
- Honra
- Justiça
- Proteção comunitária
- Responsabilidade social
Esses princípios ajudaram a moldar sociedades eslavas ao longo dos séculos.
Conclusão
Kiev Antiga não foi apenas uma capital medieval. Foi um centro espiritual onde o céu e a terra se encontravam simbolicamente por meio do culto a Perun. O deus do trovão moldou a visão de mundo dos povos eslavos, influenciando política, guerra, agricultura e identidade cultural.
Ao caminhar pelas colinas históricas de Kiev, observar o curso do Dnieper e visitar museus locais, o visitante percebe que Perun não pertence apenas ao passado. Ele continua ecoando na memória coletiva e na herança cultural da Europa Oriental.
No Mitos e Destinos, cada local revela mais do que ruínas. Revela como mitos moldaram povos inteiros e continuam influenciando o presente.
